terça-feira, 18 de maio de 2010

TARDE DE DOMINGO

Algumas expressões eram dele e de mais ninguém. Dizer isto significa afirmar que nos lábios de qualquer outra pessoa não teriam o mesmo significado. Era assim. Não existem explicações melhores e mais contundentes. Marcamos uns aos outros a partir das palavras; ditas e também não ditas.

O Sérgio em dados momentos disse sem dizer. É isto! Até com o seu silêncio ele disse o que era necessário ser dito. Com os seus telefonemas sem assunto e razão de ser, dizia: somos amigos. Estava dito! Eu assim o compreendia.

Saber que temos um amigo é sempre muito bom. O Sérgio era um bom amigo. Não sei se era bom em outras áreas e para outras pessoas. Esse testemunho é meu e tão somente meu. Ele foi um bom amigo.

Ser seu “mestre” – era assim que ele se referia a mim – era algo desafiador. Nunca achei que pudesse ser realmente “mestre” do Sérgio. Afinal, acho que ele sabia o que realmente era essencial à vida. Como disse em seu funeral, citando o grande poeta Mário Quintana, “morrer, que me importa... o diabo é não saber viver”, o Sérgio, de maneira singular, com acertos e erros, aprendia a viver com a própria vida. Nunca acreditou que não teria algo a aprender. Assim, vivia.

Sua partida demonstra que a vida é mesmo transitória. Não imaginei jamais que o Sérgio pudesse morrer antes de ficar “velhinho” como ele muitas vezes disse que ficaria. Sempre imaginei um Sérgio “velhinho” e “rico”. A verdade é que ele não teve tempo para isso. Se tivesse, daria um jeito. Ela dava um jeito para muitas coisas.

Entretanto, se eu pudesse dizer algo ao Sérgio, diria que não havia motivos para tristeza. O Sérgio foi o grande professor que tivemos. Com ele, aprendi a não levar a vida tão à sério. Aprendi o real significado da canção do Sérgio Britto. “Devia ter amado mais / ter chorado mais / ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado mais / e até errado mais / ter feito o que eu queria fazer”. Este foi o seu maior e mais importante ensinamento a mim. Nunca fui o seu “mestre”! Ele sim foi um dos meus grandes professores. Ele foi o grande “mestre” dessa relação de amizade que no meu coração deixa saudades e assim será sempre, desde aquela tarde de domingo.